“O caldeirão não me assusta
Essas paredes riscadas com a ansiedade de cada detenta me deprimem. Um palitinho novo, “Natasha”, Deus é fiel! Não sei quanto tempo tenho aqui, mas não tenho dúvida do que lhes falta. Antes da terapia nos despimos, uma milícia detalhada é feita, analizadas com cuidado e zêlo, todas em nosso todo. Com algumas dura 5 minutos, com outras, se não passar de 30 é um alivío. Percebo que as mais novas, bonitas, usurpadoras de comerciais de margarina, são também mais perigosas, necessitam de mais atenção dos guardiões da benevolência. Não deveria estar aqui, não sou criminosa. Peguei pouca coisa, uma prataria, um crucifixo... Eu tava necessitada , o João tava necessitado, a gente necessitava. Aposto que se não tivessem dado flagra, nem perceberiam. Gente rica não sabe fazer caridade sem propaganda.
Esses dias, vi na televisão um celular que você ativa tudo com o dedo — isso existe mesmo? Parece coisa de ficção científica, não que eu dúvide da televisão, ao contrário, gosto dela, acredito nela. João deve ter ficado feliz, isso sim é coisa boa de se roubar. Não lembro do meu primeiro dia aqui, minha alma faltou ao julgamento, minha mãe não, e do João não esqueci. Acho que meu coração já não bate nem apanha, aos poucos vou perdendo a vivacidade, as flores do meu jardim vão secando — agora é outono, né? Esse outono nunca vai acabar?
Agora me lembrei da noite, aquela noite. Não lembro — já te contei? O tempo aqui já mexeu comigo. Do que eu tava falando mesmo? Ah, da noite — tô precisando mesmo de um remédio. A lua tava cheia, danada de bonita lá no céu. Ele me pegou pela cintura, a gente roçou até queimar de amarelo, ele me fez rir, foi gozado. Faz tanto tempo, a gente se engraçou, teve um caso, não casou, casava, ele jurou que casava, só precisava virar chefe, faltava pouco, João é nome forte.
Perdi o privilégio de cuidar de mim mesma, voltei pra casa da mãe, com comida e sem trabalho, sou filha do Estado.
Minha cabeça doí, tenho certeza que essa consulta não servirá de nada, terapia é pra quem precisa arranjar problema, quem tem tudo é infeliz, ando me esquecendo, não sei o que vivi, o que foi vontade, o que escutei, fantasio. A verdade, é que tenho desejo de comprar pão na padaria. O cheiro fresco, o salto que torcia, pílula de vaidade preventiva, nojo de animais asquerosos. Quando queria me agradar deixava um dinheiro a mais, dava pra comprar requeijão, eu gosto de requijão, no pão quentinho me fazia esquecer de tudo, do mundo, sentia ter o suficiente pra nunca acabar. Não conheci sua família, nenhuma delas, não conheci seu cachorro, seus peixes ou o jegue da casa ao lado, conheci o gato e quando o via coisa boa não vinha. Um dia, me disse que gostava mais de bicho que de gente, porque bicho não finge, não mente. Eu tinha medo, me mandava parar de ser boba, “quem faz mal pro homem é o homem”, me lembrei meu pai. Meu pai — qual era mesmo o nome dele? — Mário, Maurício, Marcelo... Era alguma coisa com M... Não lembro, esqueci — Lembrei! Era Francisco. Minha mãe e ele não passaram dos cinco anos de casado, veio minha irmã, eu, uma barriga, uma barriga que não passou, sabe como é, vêm carne nova e a carne é fraca.
Nele, dele e com ele estava segura, me sentia segura. Já era tudo que eu tinha.
João não é grande coisa, não é extraordinário, nem bonito chega a ser. Veio de carga viva num pau-de-arara, no meio de tanto cabra aprendeu a ser macho, parece um bicho. Com ele descobri a rua, eu quero a rua, a rua não queria sair de mim, quem tem rua tem tudo, eu era divína, alheia a todos, observava sem interferir, sem ser observada, sem ser reparada. Na calçada, ninguém dizia nada, só passavam depois de cada tragada, parou na minha mão, olhei pro João, sabia o que fazer — a fumaça desce, a garganta trava, falta ar, tossi, achei até que não ia conseguir, falaram que nem parecia minha primeira vez. Ele que me ofereceu, “quem trabalha com doce não pode ter diabetes”, porque recusar? Tem coisa que a gente gosta, coisa que não — daquilo eu gostei.
Eu não gosto de como ele me tratava, me apodrecia com tudo que escorre, secreta, corroí. Água branca, água benta, não era morno, sangrava, ardia, doía, queimava, eu mirrada, míuda, surrada, mal-feita, chorava. Nunca me atrevi a sonhar erótico e agora era vítima, protagonista em meu próprio filme. Peito que enchia, o amor batia, abri, deixei que entrasse. Às 7:00 ia “trabalhar”: “Quero tomar banho, Cris”, ia ajudá-lo. A tarde me vinha dominado, o facão aparecia, o vômito, minha domestidade. Abria a calça: “Mama, Cris, mama com vontade”.
Às vezes, pensava em desistir, às vezes lastimava tê-lo escolhido e qualquer outra coisa me parecia mais possível, não aguentava a solidão de viver a dois, mas o que seria de mim? Ele era meu mundo, meus sonhos, meus planos, não aguentava adimitir que apostara tão alto para fracassar, a esperança de ver se materealizar tudo que sempre quis era maior que a própria realidade, a esperança de ser por esperança, então continuava, tirando leite de pedra, dando murro em ponta de faca. Ninguém mais iria me amar, ninguém me iria querer, eu não tinha para onde voltar, já havia declarado guerra, era tarde pra levantar bandeira de paz, eu era grata por ele ter me olhado.
Eu morri e me refiz inúmeras vezes, me refazia sempre que o João, deitado em meu colchão espriguiçava-se, esticando-se para alcançar o inalcansável, insaciavel, começará o dia, a janela alegava madrugada. “Tô indo pro baile”, eu ficava, com a alma fria, nem um gesto de corcondância o dava, ele não precisava, era cão sem dono e sem coleira, sua liberdade era o limite da libertinagem, a brisa, com dedos longos, finos sem peso, era a única de quem aceitará cafunés. Eu precisava dele, para sustentar meus caprichos, bancar meus vícios, ser ator principal em meus pensamentos, de uma vida que não era mais minha, assim o João alegava, e eu menina do asfalto, criada a leite de cabra e mussarela de bufalo me encantava, sua singularidade me seduzia, era o suficiente para que corresse o risco, tinha me sentido viva, mas não aprendido a viver. Eu nunca lhe era prioridade, dizia não mudar por mulher nenhuma, me pedia para mudar, aliviar, aceitá-lo como era, era homem, homem que se preze tem um háren bem servido em qualidade e quantidade para atender-lhe os prazeres da carne, eu era mais uma, assim entendia, ele era meu único, para ele era assim que tinha que ser, para mim só podia ser assim, ele era minha única escolha.
De todas as mulheres com quem João saía a que mais me incomodava era a Luíza, mulher boa, Deus havia lhe feito assim, tocava em corpo de homem como se fosse trófeu, se exibia, dada, sabendo onde queria toque ,o que a satisfazia, querendo sexo por sexo, não exigindo amor ou o dando, desfilando uma segurança arrogante que eu invejava. Eu exigia amor, não conhecia segurança, não transava por prazer, mas era para o meu colchão que ele voltava quando o galo cantava, anunciando novo dia, vai ver, ele gostasse de mim, era a única forma que sabia amar, só queria que ele me tocasse.
Já era tudo que eu tinha.
A gente tem mania de fazer drama. Minha vida foi boa, viver não é escolha, é necessidade, existe sina, destino, gente que nasce pra sofrer, Cristo nasceu para a cruz. Minha vida foi boa, me arrependo de pouco, do bucho não, bucho passa, a cria nasce, cresce, sai de casa, muda. Também, quando minha mãe souber que será avó, vem voando, só pra virar mãe. O que me mata é essa tatuagem, ela não muda, não sai, não me deixa. Jurou que casava. Não veio me fazer nenhuma visita. — Posso confessar? Às vezes esfrego o braço na parede só para ver se a pele sai com tudo que tá gravado nela.
Naquela noite ele ficou do lado de fora, disse que ia ser fácil, coisa simples, a casa tava dormindo. "Confia em mim", disse, e me deixou. Virei o cordeiro.
Mas o vício não me deixa.
— Você sabe se o João me respondeu?
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